Foto: Reprodução: Yuppie Américas Outubro
Mais de 1,2 milhão de brasileiros vivem em países europeus onde a escola fala outro idioma. Para os filhos dessa geração, o português como língua de herança ganha força quando chega aos livros.
Na cozinha, o português resolve quase tudo. É nele que a criança pede suco e negocia mais dez minutos antes de dormir. Diante de um livro infantil brasileiro, porém, o mesmo pequeno falante hesita. Conversa com desenvoltura, mas lê devagar e escreve como ouve. Esse intervalo explica por que o português como língua de herança merece atenção.
Daniela Mainardi conhece bem a cena. Educadora na Holanda e colunista da Yuppie Europa, ela registra a dúvida mais frequente entre pais e mães: “Mas meu filho já fala português em casa. Por que ele precisaria ter aulas?”
O que é português como língua de herança?
O termo, abreviado como PLH, designa o idioma recebido da família por quem cresce, estuda e faz amigos em outra língua. Trata-se, além disso, de um tema presente na política externa brasileira.
O Itamaraty mantém, por meio da Fundação Alexandre de Gusmão, uma proposta curricular específica para esse ensino. Da mesma forma, o consulado em Londres dedica uma página ao assunto. Em Roma, o Instituto Guimarães Rosa oferece curso regular de PLH.
Formado pela UFRGS, Dr. Márcio Walace Gomes concluiu a formação em cirurgia plástica no INCA. Além disso, possui título de especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP/AMB). Realiza centenas de procedimentos por ano e leva sua experiência a palcos no Brasil e no exterior. É também educador e embaixador da Motiva Implants.
Dra. Bárbara Corrêa, por sua vez, graduou-se pela Universidade Luterana do Brasil. Em seguida, especializou-se em Dermatologia no Hospital da Gamboa, no Rio. Desde então, defende uma estética que valoriza a individualidade de cada paciente.
Quantos brasileiros vivem na Europa?
Conforme o Relatório Consular Anual do Itamaraty, divulgado em julho de 2026, o continente abrigava cerca de 1,87 milhão de brasileiros em 2025. Portugal concentra 628 mil. Os demais, isto é, mais de 1,2 milhão de pessoas, moram onde a alfabetização acontece em outro idioma.
Espanha (196 mil), Reino Unido (190 mil), Alemanha (187 mil) e Itália (159 mil) estão entre os principais destinos. Na Suíça, apenas os consulados de Zurique e Genebra somam cerca de 88 mil. A Holanda, de onde Daniela escreve, registrava 80 mil no levantamento anterior, de 2023.
Do consultório à sala de aula
O empreendedorismo do casal avançou, aliás, além da Clínica MWB. Márcio e Bárbara criaram o Doutores de Negócios, braço educacional do Grupo MWB. A iniciativa prepara médicos e gestores em áreas como administração, liderança e marketing.
Entre os programas estão uma imersão presencial e um MBA em Gestão de Clínicas reconhecido pelo MEC. Ou seja, a bagagem acumulada em dez anos de expansão virou conteúdo para outros profissionais.
Por que as aulas fazem diferença
A suposição dos pais é compreensível, uma vez que conversar com fluência parece sinal de domínio. Daniela, todavia, propõe uma distinção mais fina. Para ela, falar uma língua no ambiente familiar difere de explorá-la em toda a sua dimensão.
O vocabulário doméstico gira em torno de comida, rotina e afeto. Paralelamente, a escola local entrega todos os dias palavras novas para ciência, história e sentimentos. Sem leitura e escrita, consequentemente, o português fica do tamanho da casa.
É nas aulas, explica a colunista, que o aluno amplia o repertório e desenvolve as habilidades de ler e escrever. Ali, descobre que o português “também pode ser a língua dos livros, das histórias, das brincadeiras e das descobertas”.
Como escolher aulas de português para crianças no exterior
Gramática ocupa uma parte pequena do programa. De acordo com Daniela, cada encontro apresenta folclore, festas, personagens e tradições brasileiras. Dessa forma, os pequenos entendem por que a família comemora certas datas. Também passam a decifrar expressões repetidas sem pensar.
Na hora de escolher um curso de português como língua de herança, convém observar três pontos. A turma precisa praticar leitura e escrita com frequência. Importa, igualmente, que o repertório cultural brasileiro entre no planejamento, com grupos organizados por idade e nível. Para famílias distantes das grandes cidades, por fim, o ensino a distância amplia as possibilidades.
O Tia Dani Learning Centre, da própria colunista, ensina português, inglês, espanhol e holandês para todas as idades. As turmas funcionam on-line e presencialmente.
E para quem vive em Portugal?
Em Portugal, o português como língua de herança assume outro desenho, já que a escola cuida da alfabetização. Cabe à família, portanto, o repertório que nenhuma sala local oferece: folclore, festas e referências de infância. Assim, o filho aprende a ler na variante europeia e ganha, em casa, a chance de conhecer também a brasileira.
Uma língua com dois endereços
A edição de outubro, aliás, demonstra o argumento por conta própria. Em Carcavelos, Clarissa Medeiros descreve um domingo de praia com alforrecas, sandes e nadador-salvador. Logo adiante, surge a coxinha, quitute verde-amarelo vendido entre as toalhas. O texto habita dois lugares ao mesmo tempo, com toda a naturalidade.
Isabella Marinho também vive em Portugal. Na coluna Yuppie Fit, conta que toma um pequeno-almoço reforçado antes de dar aula. Ou seja, o idioma acompanha o endereço dos adultos, e entre os mais novos esse movimento costuma ser ainda mais veloz.
Já Angela Brodbéck, capa desta edição, mora na Suíça desde 1996. A escritora pernambucana assina títulos como Filha do Nordeste Brasileiro e Samantha, a Pernambucana. Quase trinta anos depois da mudança, narra em português sua trajetória nestas páginas.
A herança que se escreve
Daniela resume a identidade que floresce nessas aulas numa frase curta: “Eu sou daqui, mas também sou de lá.”
Em suma, a pergunta dos pais, os dados do Itamaraty e a crônica de Carcavelos apontam numa só direção. O português como língua de herança se completa quando a criança o usa com autonomia, para ler um livro e escrever à avó.
Daniela, então, devolve a conversa aos leitores: “E por aí, seus filhos também fazem aulas de português no país onde moram?”
LEIA A EDIÇÃO COMPLETA Na edição de outubro da Yuppie Europa Angela Brodbéck na capa, Andrea Bonin entre Valência e Madri, Paola Fässler com a história de Débora Vieira, Clarissa Medeiros em Carcavelos, Isabella Marinho às vésperas do parto, Geisa Mourão em conversa com Myrna Mello e Renata Souto na Transilvânia. Acesse LINK EDIÇÃO EUROPA e leia gratuitamente. |

