Foto: Reprodução: Yuppie Magazine Ásia Setembro
Acontece em qualquer dia comum de trabalho remoto, entre uma reunião e outra: os olhos encontram a mesma parede branca do apartamento ou casa, alugados, e nada naquele cômodo carrega história. Nenhum objeto guarda memória. Nenhuma textura remete a um cheiro conhecido. É nesse tipo de instante pequeno, quase banal demais para ser notado, que procuramos por intensificar nossa personalidade dentro de casa, trazer aquele “quê” de nosso lar e existem duas colunas, da edição de setembro da Yuppie que traz isto: uma tratando de plantas, outra de aromas. E com isto nos vem a pergunta: como se constrói pertencimento em um espaço que ainda não é casa?
Gestos pequenos pesam mais do que grandes reformas
Existe uma suposição comum de que recriar a sensação de lar exige investimento visível: reforma, decoração completa, um orçamento que muitas vezes não cabe na vida de quem acabou de se mudar. As colunas de Raquel Shirota e Patricia Amarante sugerem outra lógica, mais barata e, ao mesmo tempo, mais exigente: o que ancora uma pessoa a um lugar não é a permanência do espaço, mas a repetição de um gesto de atenção dentro dele. Regar uma planta todos os dias no mesmo horário. Sentir um aroma específico antes de abrir o notebook. São ações que não mudam a metragem de um apartamento ou casa, mas mudam a relação de quem mora nele com o próprio tempo ali dentro.
A agrônoma Raquel Shirota, na coluna Green Garden, descreve mecanismos que parecem distantes da vida prática — fotorreceptores que fazem uma planta girar em direção à luz, gravitropismo que orienta raiz e caule em sentidos opostos, folhas de Mimosa pudica que se fecham ao toque como resposta de defesa — mas que, olhados de perto, revelam algo sobre presença: uma planta reage porque está sendo observada com regularidade, e essa observação regular é exatamente o que falta em rotinas marcadas por mudança constante de endereço, fuso e idioma. Cuidar de um vaso vira, sem que a pessoa perceba, um treino de permanência num momento em que quase tudo ao redor é provisório. Há também uma camada prática nisso: Raquel recomenda cactos e suculentas para quem tem pouco tempo disponível, já que essas espécies armazenam água nos próprios tecidos e toleram intervalos maiores entre regas. Uma escolha que parece só botânica, mas que na prática resolve o conflito entre manter algo vivo e sustentar uma agenda de trabalho que atravessa fusos horários.
Baseada em Singapura, a aromaterapeuta Patricia Amarante trabalha do outro lado do mesmo problema, e sua coluna oferece um dado que dá contorno científico à intuição: bastam vinte e dois segundos para que uma molécula aromática alcance o sistema límbico, área do cérebro ligada à emoção, interrompendo o piloto automático que qualquer rotina acelerada impõe. Não é acaso que ela recomende óleos essenciais associados a estados específicos — olíbano para presença, peppermint para foco, lavanda para desacelerar a ansiedade no fim do dia — porque o gesto de escolher conscientemente qual sensação convocar naquele momento já é, em si, uma forma de recusar o automatismo que caracteriza dias corridos em cidades que não param.
O que muda quando o ritual é levado a sério:
— Manter um vaso perto da mesa de trabalho e girá-lo periodicamente, observando para qual lado a planta se inclina.
— Escolher um aroma fixo para abrir e outro para fechar o expediente, criando dois marcadores sensoriais no meio de uma rotina sem fronteiras claras entre trabalho e descanso.
— Aceitar que esses gestos não substituem o Brasil, e não precisam substituir — servem para ancorar quem já decidiu construir vida em outro lugar, não para adiar essa decisão.
Pertencimento é sentido quando se há presença
Singapura, Tóquio, Xangai: cidades conhecidas pela verticalização, onde o metro quadrado é caro e a paisagem muda de prédio para prédio sem aviso. Nesse tipo de cenário, esperar que o sentimento de lar nasça do espaço físico é apostar contra as próprias condições da cidade. As colunas de Raquel e Patricia caminham em outra direção: sugerem que pertencimento se constrói por repetição, não por posse, e que um vaso na janela ou uma gota de óleo na palma da mão fazem tanto trabalho de enraizamento quanto qualquer metro quadrado a mais. A edição de setembro completa da Yuppie Ásia, com as colunas de Raquel Shirota e Patricia Amarante na íntegra, está disponível na revista edição Ásia.

