Foto: Reprodução: Banco Magnific AI
Estados Unidos, Suíça e Vietnã. As capas de outubro da Yuppie reúnem três histórias sobre câncer de mama no exterior e um recado que vai além da mamografia.
Enfrentar um câncer de mama no exterior exige coragem, informação e rede. Três brasileiras mostram isso nas capas de outubro da Yuppie. A primeira trajetória começa com um detalhe quase invisível: uma pele fina no mamilo, que grudava na roupa e voltava. Com o tempo, a lesão virou ferida e começou a sangrar.
Silu Scheffer trabalhava como modelo fitness e se sentia invencível. Durante quase dois anos, tratou o sinal como alergia, e dois médicos concordaram. A biópsia, feita quando o quadro se agravou, trouxe enfim o resultado: câncer. Ela tinha 39 anos.
Silu estampa a Yuppie Américas. As edições da Europa e da Ásia, por sua vez, trazem Angela Brodbéck e Sandra Thomazini. Angela é escritora pernambucana e vive na Suíça desde 1996. Sandra, paulistana, mudou-se para o Vietnã em 2023.
Lidos em sequência, os três relatos respondem a uma pergunta que muita brasileira emigrada já se fez em silêncio: como é atravessar essa doença em outro país?
Quais sinais do câncer de mama merecem atenção?
O Outubro Rosa costuma ser resumido a um lembrete de agenda: marcar a mamografia. No entanto, em nossas entrevistas, acrescentamos algumas camadas a essa mensagem.
Sandra cresceu atenta, porque duas tias enfrentaram o mesmo câncer. Por isso, fazia check-ups e começou as mamografias aos 35. Mesmo assim, foi ela quem percebeu o caroço rígido e dolorido na mama direita. Fazia pouco mais de um ano que morava no Vietnã. O laudo, em 28 de outubro de 2024, apontou um tumor triplo-negativo de grau 3.
Angela, por outro lado, soube em uma consulta de rotina. A ginecologista notou uma alteração durante o exame e foi direta: “Tenho quase certeza de que é câncer.”
Assim como Silu, Sandra recebeu a notícia antes dos 40, idade em que o rastreamento regular começa nos Estados Unidos. Em ambos os casos, portanto, o alerta partiu de uma mudança que elas próprias perceberam.
A Organização Mundial da Saúde lista os sinais que pedem avaliação. Entre eles estão nódulo ou espessamento na mama, alteração de tamanho ou formato e mudanças na pele. Transformações no mamilo ou na auréola e secreção anormal ou com sangue completam a relação.
A entidade, inclusive, acrescenta duas ressalvas valiosas. A maior parte dos nódulos é benigna. Além disso, a maioria das pacientes têm histórico familiar desconhecido ou ausente. Em 2024, de acordo com a OMS, 2,4 milhões de mulheres receberam esse diagnóstico no mundo.
Câncer de mama no exterior: como funciona o rastreamento
Para quem pensa em prevenção ou investiga um câncer de mama no exterior, as regras mudam de país para país. Conhecê-las, portanto, evita esperas desnecessárias. Nos Estados Unidos, a força-tarefa de serviços preventivos, a USPSTF, recomenda mamografia a cada dois anos, dos 40 aos 74.
Na Suíça, os programas organizados são cantonais e cobrem apenas parte do país. O de Basileia, por exemplo, atende mulheres dos 50 aos 74, a cada dois anos, sem cobrança de franquia.
Silu não tinha plano de saúde. Então, procurou um hospital, apresentou sua situação financeira e conseguiu tratamento praticamente gratuito. O caminho encontrado por ela tem base legal. Nos Estados Unidos, hospitais sem fins lucrativos precisam manter uma política escrita de assistência ao paciente. O documento define critérios para cuidado sem custo ou com desconto.
Para a triagem, existe ainda o programa nacional de detecção precoce do CDC. Ele oferece mamografia e investigação a mulheres de 40 a 64 anos sem seguro ou com cobertura que exclua o exame. A renda familiar deve ficar abaixo de 250% da linha federal de pobreza. Como o atendimento é feito por programas locais, vale consultar os critérios de cada região.
Fertilidade: uma conversa antes do tratamento
Luly Correia, patient advocate* em fertilidade, lembra que existe uma janela de tempo. Ela se abre entre a confirmação da doença e o início da quimioterapia ou da radioterapia.
A orientação coincide com a diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, atualizada em 2025. Segundo o texto, médicos e pacientes devem conversar sobre infertilidade o mais cedo possível, antes de a terapia começar. Luly, contudo, calibra a expectativa: preservar a fertilidade mantém uma possibilidade aberta, sem garantia de gravidez.
Silu engravidou aos 45 anos, já na menopausa, e hoje é mãe de Otto, de dois anos. Ela narra o episódio, aliás, como uma surpresa que desafiou os números.
*Um patient advocate (defensor do paciente ou representante de pacientes) é um profissional ou organização que ajuda pacientes, familiares e cuidadores a navegarem pelo complexo sistema de saúde, garantindo que as necessidades, valores e preferências do paciente sejam sempre respeitados.
A vida depois do tratamento
Angela passou pela cirurgia em outubro de 2023 e, em seguida, pela radioterapia. Atravessou tudo emocionalmente anestesiada, como ela mesma descreve, com o pensamento voltado para o filho autista. A fase mais difícil, entretanto, chegou quando o calendário de sessões terminou.
O bloqueio hormonal com tamoxifeno trouxe crises de ansiedade, taquicardia e falta de ar. Como resultado, a dose precisou de ajuste. Nesse momento, Angela encontrou a frase que dá título ao seu relato: “Existe o depois.”
Na coluna Empreendedorismo da mesma edição, Paola Fässler apresenta Débora Vieira, empresária da área de estética na Suíça. Débora decidiu mostrar parte do tratamento publicamente, para registrar que existe vida durante o processo. Desde então, redesenhou sua régua de sucesso, na qual saúde, família, fé e tempo ganharam prioridade.
Acolhimento: quem segura a mão
Receber um diagnóstico de câncer de mama no exterior envolve, sobretudo, conversas difíceis à distância. Sandra deu a notícia aos pais por videochamada, poucos dias antes da primeira sessão de quimioterapia. Afinal, logo eles a veriam careca. Ouviu de volta: “Você será curada, filhinha.”
O marido a acompanhou no começo, mas o trabalho dele a levou a enfrentar as etapas seguintes sozinha. Foram sete meses de tratamento, uma infecção grave, covid e a morte repentina do pai. Ela não pôde se despedir dele.
Ainda assim, Sandra prefere destacar a delicadeza que encontrou pelo caminho. O cabeleireiro do marido se emocionou a ponto de querer raspar a própria cabeça. No hospital em Hanói, a barreira do idioma cedeu a tradutores, sorrisos e a um desajeitado “Xin cảm ơn”, obrigada em vietnamita. Atualmente, ela volta lá apenas para dar um oi.
Da mesma forma, a rede aparece nas colunas. Em Atlanta, Thaís Conte propõe usar os encontros de outubro para gerar impacto. De Singapura, Roseli Costa lembra que fé e acompanhamento médico caminham juntos.
O recado das três edições
Sete anos depois de receber a notícia, Silu está curada. Sandra completa em outubro dois anos do diagnóstico e um ano e dois meses da cura. Angela, enquanto isso, segue a terapia com uma dose que consegue tolerar e continua escrevendo.
Desse modo, os três relatos de câncer de mama no exterior chegam a uma conclusão comum. A mamografia em dia é fundamental e convive com outros cuidados. Conhecer o próprio corpo, insistir na investigação quando algo muda e saber de antemão a quem recorrer completam essa proteção.
Por fim, Silu sintetiza tudo numa instrução simples: “Não normalize um sinal que persiste.”
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Diante de qualquer alteração na mama, procure um profissional de saúde.
LEIA A EDIÇÃO COMPLETA Outubro Rosa nas três edições da Yuppie Leia na íntegra os relatos de Silu Scheffer (Yuppie Américas), Angela Brodbéck (Yuppie Europa) e Sandra Thomazini (Yuppie Ásia), além das colunas de Paola Fässler, Thaís Conte e Roseli Costa sobre o tema. Acesse e leia gratuitamente. |

